Pesquisadores de tendências e profissionais de arquitetura e design de interiores ajudam a mapear os comportamentos que vão influenciar os projetos de casas e apartamentos nos próximos tempos
Nos últimos anos a casa se tornou um oásis em meio ao caos urbano, a decoração ganhou ares minimalistas, a tecnologia trouxe mais praticidade no dia a dia e a cor vermelha até virou um hit momentâneo. Tudo isso moldado pelos eventos que acontecem no mundo e pelos novos comportamentos que surgem a partir deles. Mas, o que será tendência na decoração em 2024? Para descobrir o que vai palpitar nos corações de quem vai reformar ou construir — ou até mesmo dar uma renovada rápida no décor — neste novo ano, falamos com especialistas hábeis em mapear insights e traduzi-los para o universo da arquitetura e design de interiores.
Segundo eles, a decoração deve ser menos padronizada e o novo luxo será pautado ainda mais pela exclusividade. Nesse sentido, os trabalhos manuais ganham importância. A ideia de casa-refúgio vai continuar em alta e isso deve influenciar a escolha de cores e materiais. Já a tecnologia promete ir além do entretenimento e será cada vez mais acessível. Outro aspecto importante são as mudanças climáticas, que pedem urgência na criação de alternativas para levar bem-estar e segurança aos moradores. “O ano de 2024 promete espaços inspiradores, impulsionados pela inovação, sustentabilidade e personalização, onde as tendências buscam não apenas seguir padrões estéticos, mas também incentivar a autoexpressão e a reflexão dos valores pessoais na criação de ambientes ideais para viver”, afirma Ale Salles, arquiteto e coordenador da pós-graduação em Design de Interiores Contemporâneo do IED São Paulo. Confira em detalhes 15 tendências do universo da arquitetura e decoração apontadas pelos especialistas!
1. Afeto e ancestralidade
O desejo por ambientes que revelam autoexpressão e, ao mesmo tempo, transmitem conforto e aconchego aos moradores está ligado ao resgate da ancestralidade e à itens afetivos. “Eu acredito muito mais que a tendência para 2024 está alinhada ao afeto em si do que necessariamente a um estilo específico. Isso porque, ainda sob um efeito pós-pandemia, as pessoas estão buscando dentro de suas casas um refúgio, um lugar com significados para se reconectar”, diz a arquiteta Melina Romano. A profissional explica que dentro dessa estética há uma preferência por peças que carregam consigo histórias, misturadas em um ambiente atual.
Essa mistura aparece também no estilo neo-tradicional, que mescla elementos clássicos com toques contemporâneos, elencado por Ale Salles. “Esse visual proporciona sensação de conforto, equilibrando a elegância atemporal com uma sensação de modernidade”, afirma.
No estudo de tendências Pinterest Predicts, um estilo batizado de gótico-sertanejo ficou em evidência. Segundo a plataforma, essa decoração é um misto de country e gótico, que mescla referências retrô, clima de faroeste e toques sombrios. Para isso, a geração Z e os boomers devem garimpar peças de antiquário, tapeçarias com franjas e chapéus de cowboy para incluir em suas decorações.
2. Construção sustentável e biofílica
Tema central e essencial em muitas áreas, a sustentabilidade também deve nortear as escolhas para os projetos de arquitetura e interiores em 2024. De acordo com Ale Salles, há uma crescente ênfase no uso de materiais sustentáveis e designs inspirados na natureza, refletindo a preocupação crescente com o tema. “Essa tendência vai se destacar com a ascensão do design biofílico, incorporando elementos naturais como plantas internas, mobiliários de madeira orgânica e paletas de cores terrosas para criar fusões harmoniosas entre espaços internos e externos”, explica. Nesse movimento, há ainda a preferência por materiais ecológicos, soluções energéticas eficientes e a reutilização de peças decorativas.
Melina Romano destaca também que o upcycling vai ganhar ainda mais força. “As pessoas estão pensando sobre como a economia circular pode acontecer também dentro de casa. Eu acho que isso é uma tendência além da estética, mas que está muito ligada nesse estilo particular que a casa vem se tornando”, afirma Melina. De acordo com o Pinterest Predicts, houve um aumento significativo nas buscas relacionadas ao reaproveitamento e reciclagem de materiais, evidenciando que o que não serve para uma pessoa pode ser o tesouro da outra. Segundo a pesquisa, a geração X e os boomers vão transformar retalhos, madeira e outros materiais reciclados em peças e objetos novos.
3. Escapismo
É inegável que no mundo há uma busca por coisas alegres e divertidas e isso também se refletirá na decoração em 2024. “Isso vem do escapismo porque os tempos são sombrios e as notícias que viralizam são aterrorizantes”, explica Iza Dezon, especialista em tendências e CEO da empresa de consultoria Dezon. Esse desejo de fugir, de criar um mundo paralelo onde tudo é bonito e feliz, explica o sucesso da inteligência artificial, que viralizou nas redes sociais em 2023. “A inteligência artifical trouxe como influência um toque de surrealismo, a preferência por itens lúdicos, nostálgicos e cores bastante saturadas“, diz.
4. Luxo discreto
Segundo Iza Dezon, vivemos a rebordosa do quiet luxury, um conceito estético de luxo discreto que dominou a cultura pop em 2023 impulsionado pelo lançamento da quarta e última temporada da série Succession, hit da HBO. Assim, tons sutis, como beges, branco, tons de cacau, tabaco, caramelo e muito off white estarão em alta, além de preto e cinza para criar contrastes. “Essa estética casa muito bem com o desejo do brasileiro por coisas com cara de novas”, afirma.
5. Artificação
Essa tendência vem de encontro à capacidade de a grande indústria copiar criações de grandes marcas de luxo. “Tenho a sensação de que o mercado está começando a se interessar pela artificação“, revela Iza Dezon. Isso quer dizer: elevar o fazer artesanal a um status de prestígio indiscutível. Trata-se de um desejo por objetos que sejam únicos e tratados como arte e isso é possível graças às técnicas feitas à mão. “Desse insight nascem parcerias e coleções de peças limitadas com senso de excelência. O mercado de luxo está fazendo isso para sobreviver às marcas que copiam massivamente, criando algo muito único e exclusivo para que isso seja o valor agregado”, explica a especialista.
6. Cores terapêuticas e restauradoras
“Existe uma tendência no uso de cores mais suaves para esse ano, incluindo tons de verdes e azuis claros, acompanhado de tons mais naturais como marrom, laranja, terracota, mostarda”, revela Nabila Sukrieh, arquiteta e sócia do Estúdio Minke. A profissional conta, ainda, que nos projetos do escritório ela e sua equipe gostam de trabalhar especialmente com a seguinte combinação: tons mais leves e refrescantes unidos a matizes mais quentes e naturais. “Sempre com uma ou duas cores mais potentes para dar mais contraste”.
Essa ideia de suavidade é reforçada pela cor do ano de 2024, eleita pela Coloro/WGSN, a Apricot Crush. Trata-se de um tom de laranja refrescante, energético e rejuvenescedor. Cada vez mais as cores vão desempenhar um papel fundamental na composição de ambientes envolventes, que tenham uma atmosfera de alegria e bem-estar. “À medida que lidamos com diversos sentimentos e emoções incertas sobre o futuro, cores quentes e restauradoras como essa serão atraentes e combinarão perfeitamente com a proposta de uma casa com qualidades terapêuticas”, analisa Naia Silveira, especialista em tendências na WGSN América Latina. Além disso, os tons médios, inspirados na terra, virão para conectar os moradores à natureza, enquanto os neutros suaves vão compor espaços reconfortantes que acalmam e nutrem.
7. Acabamentos naturais
Considerando o cenário das diversas crises mundiais que vivemos atualmente, a casa deve ser projetada para diversas formas de vida e gostos pessoais e, por isso, deve ser feita para durar. “Assim, representando a longevidade, a tendência são materiais atemporais e de alta qualidade, que atravessarão anos e até mesmo gerações”, aponta Naia. Por isso, haverá mais consciência nas escolhas de acabamentos. “As pessoas vão querer algo que dure mais tempo e que também poderá ser reciclado no futuro. Por exemplo, um piso de madeira pode ser lixado novamente”, explica Melina Romano. A arquiteta ressalta ainda a relevância dos mármores brasileiros rajados, com bastante desenho. “Vem aparecendo muito no mercado e eu acho que há uma tendência forte de se valorizar os fornecedores locais”, afirma.
Há anos o minimalismo figura como uma tendência forte, que veio como uma espécie de apaziguadora de nossas angústias geradas pelo cotidiano agitado das grandes cidades. Mas, atualmente decorações mais coloridas e pautadas pela mistura de estampas e texturas têm ganhado muitos adeptos. Então, será que o minimalismo, enfim, está cedendo espaço para o maximalismo?
“Acho que existe sim um espaço para o maximalismo e que isso deverá aparecer mais durante esse ano de 2024, ainda que seja um maximalismo sutil”, analisa Nabila Sukrieh. A arquiteta afirma isso porque, segundo ela, essa tendência pode ser percebida em alguns detalhes, com elementos mais vivos e colocados de forma que os ambientes ainda sejam muito delicados, mas um pouco mais diferentes e fora da curva.
Na opinião de Naia Silveira, não se pode afirmar categoricamente que o minimalismo está perdendo lugar para o maximalismo, porém, de fato essa estética mais exuberante está ganhando espaço. “O equilíbrio, contudo, continua sempre bem-vindo”, aponta. Os dados da WGSN mostram que o maximalismo está crescendo e a estética no design de interiores está se tornando mais expressiva. Mas, ao mesmo tempo, os estilos escandinavo e japonês continuam a ser tendência.
Já Ale Salles, observa que o maximalismo está ganhando espaço nas percepções contemporâneas, trazendo de volta a expressividade e a abundância de elementos decorativos. “Ambientes mais ricos em texturas, cores vibrantes e padrões ousados podem substituir o minimalismo, refletindo uma busca por personalidade e individualidade nos espaços interiores”, reflete. Segundo o arquiteto, a mistura de estilos e a exibição de coleções pessoais podem se tornar mais frequentes no design de interiores contemporâneo.
Melina Romano compartilha da mesma opinião e acredita que o maximalismo vem como uma tendência forte. “Atualmente, jovens arquitetos estão se expondo para o mercado de uma forma mais maximalista e eu acho ótimo. É importante a gente ter diversidade e ter um pouco de tudo para todos”, diz. Apesar disso, ela acredita que isso não invalida o minimalismo. “Ao contrário, eu acho que num país tão diverso como o nosso, é preciso ter espaço para todos”.
13. Natureza indoor
Nos últimos anos a presença da natureza dentro de casas e apartamentos começou a ser apontada como uma tendência de design de interiores e isso vem se fortalecendo com o passar do tempo. “É vital para todos nós. Esperamos que as pessoas percebam isso cada vez mais! As plantas trazem uma sensação de bem-estar, leveza, calma e transformam um imóvel em um lar. Além disso, para nós, a vegetação é peça-chave na decoração. As formas orgânicas e variadas das plantas, o movimento que elas trazem para o espaço, são complementares à arquitetura”, explica Nabila Sukrieh.
Sob o olhar de Melina Romano, hoje as pessoas estão buscando mais praticidade para ter a natureza dentro de casa. “Há muitas soluções de vasos diferenciados, hortas e até mesmo iluminação específica para as plantas, já que, eventualmente, há locais internos que não são bem iluminados”, explica. Dessa forma, a arquiteta acredita que as empresas estão se movimentando para criarem soluções cada vez mais criativas e práticas para que as pessoas possam incluir cada vez mais plantas no ambiente doméstico. “Em cidades cosmopolitas, como São Paulo, as plantas significam vida e vida é o que as pessoas querem ter dentro de casa”, conclui.
14. Tecnologia para além do entretenimento
Certamente você tem um assistente de IA na sua casa e passou a pedir música para ele. Isso porque as caixinhas de som dotadas de uma persona virtual ganharam popularidade nos últimos anos e devem estar ainda mais presentes nos lares, mas com funções mais ligadas à organização e segurança. “Considerando-se que as novas moradias se tornarão mais conectadas, eficientes e inteligentes na próxima década, a tendência que toma força em 2024, pensando nos assistentes de IA, é que um único produto passe a desempenhar cada vez mais funções”, analisa Naia Silveira.
Estes dispositivos tendem a simplificar diversas atividades domésticas em casas hiperconectadas e podem gerenciar a iluminação, temperatura, sistemas de segurança e eletrodomésticos. “Além disso, esses assistentes podem oferecer lembretes para a manutenção da casa, criar agendas automatizadas e até mesmo aprender padrões de comportamento para antecipar as necessidades dos moradores”, explica Ale Salles. A Samsung, por exemplo, lançou recentemente a plataforma Samsung Food, que é um assistente pessoal de cozinha que oferece receitas personalizadas e conselhos sobre dieta ao morador, além de gerenciar o estoque de ingredientes e controlar remotamente os eletrodomésticos.
A arquiteta Melina Romano aposta no crescimento da automação residencial, que antes era menos acessível. As novas gerações estão absorvendo melhor a ideia dessa tecnologia, que está evoluindo bastante, e entendendo que isso pode facilitar muito o dia a dia doméstico. “Hoje em dia a automação é uma realidade, inclusive, para projetos de metragens menores, como os estúdios. No meu escritório, a gente consegue colocar em quase 100% dos nossos projetos, independente do tamanho e da complexidade, porque os clientes sempre pedem isso”, revela. A profissional explica, ainda, que a automação inclui desde fechaduras eletrônicas até projetos luminotécnicos mais complexos.